Matéria e Forma - Hilemorfismo



A tradição chamou de hilemorfismo a tentativa de ordenar as diversas esferas dos entes do universo em suas diferenciações de níveis, participação e intensidade de ser, usando para tal o princípio-binômio “matéria-forma”. Essa compreensão é semelhante ao que no extremo oriente se tentou, e ainda hoje se tenta, explicar a complexidade do universo através do princípio-binômio “Yang-Yin” .

Este modo de compreender a constituição do universo a partir de dois princípios parece estar difundido nas mais diversas culturas; é possível encontrar uma compreensão semelhante entre os povos africanos sob a imagem do “Igbá-odu” .

Hilemorfismo é uma palavra composta por dois termos gregos: “hylé” traduzido para o latim como matéria e “morphé”, traduzido como forma. Segundo Logos, Enciclopédia luso-brasileira de Filosofia, hilemorfismo é: “Sistema ou doutrina filosófica, segundo a qual a estrutura última ontológica dos corpos é constituída por dois componentes ou princípios radicais de ser: matéria primordial (“hylé”) e forma substancial (“morphé” ou “eîdos”)”.

Este modo de compreender a constituição universal a partir do hilemorfismo era muito claro entre os medievais. Hoje, não conseguimos adentrar nesta compreensão, visto que a desgastamos demais, não a tratando com sua dignidade própria. Assim, tentamos explicar esse princípio-binômio de um modo simplório, dizemos matéria como algo material (em oposição a tudo que não é material), e forma como se disséssemos fôrma, a modo de construção, configuração, beneficiamento, modelação, produção .

Pensamos que a concepção deste princípio ordenativo da complexidade dos entes na constituição do universo vem da maneira artesanal com que os medievais encaravam a vida e o ente no seu todo. A doutrina do hilemorfismo perdeu sua força, passando a ser considerada como um modo primitivo e ingênuo de conceber a estruturação do universo a partir de uma experiência artesanal, da mundividência de uma humanidade que vivia e pensava dentro e a partir de uma existência artesanal, que pensava a partir da fabricação de artefatos.

Isso certamente não está de todo errado, porém diz apenas parte daquela complexa explicação ordenativa que era dada para a estruturação do universo, a partir da doutrina do hilemorfismo.

A doutrina começa a se encaminhar melhor, se seguirmos um fio condutor que denomina forma e matéria como causa material e causa formal. Assim, devemos encarar forma e matéria dentro do conjunto das causas, pelas quais os medievais dinamizavam e estruturavam uma compreensão ordenada do universo.

Assim, as chaves para a leitura do hilemorfismo são: forma, matéria e causa. Estas três não estão como três realidades dispostas estaticamente uma ao lado da outra, mas formam momentos dinâmicos de uma constituição. A dinâmica de matéria mais forma constitui a causa. Dessarte, causa é o princípio dinâmico que rege, caracteriza e estrutura as diferentes esferas ou regiões do ser.

Nem a forma nem a matéria são por si; ambas são a partir de outro, ou seja “ab alio”. A matéria não poderia ser se de algum modo não fosse in-formada; por mais provisório que seja, só existe matéria mediante a ação da forma. A forma, todavia, necessita da matéria para poder ser factual, real, para que em in-formando a matéria possa se manter e permanecer como forma.

Numa ordenação, entre ambas existe uma acentuação preferencial na forma, pois seu modo de ser exerce uma prioridade em relação à matéria. Pois nos diversos níveis de participação do ser, a forma está mais próxima ao ser, tem maior comunicação do ser do que a matéria. Isto é, quanto mais forma, tanto mais ser. É a forma que nos diz o que cada ente é dentro da constituição do universo.

“A forma é o ente que dá o ser à coisa”. Em sua relação com a matéria, a forma se torna dinâmica, princípio, causa para a atualidade, para a realidade, para o ser dos entes. A princípio, a forma tem a possibilidade de determinação como propriedade das coisas materiais. Contudo, como princípio determinante da matéria, a forma vai aos poucos constituindo níveis diferentes, cada vez mais altos. Nesse sentido é que os medievais diferenciavam níveis da forma, por meio da causa. Então, compreendiam vários níveis formais: causa formal, causa final e causa eficiente. De um lado temos a matéria (o princípio passivo – causa material) e de outro lado os três níveis formais: causa formal, causa final e causa eficiente (princípios ativos).

A tradição filosófica remete essa doutrina das causas a Aristóteles, que teria apresentado 4 causas divididas em: causa material, causa formal, causa final e causa eficiente. Como já dissemos, nossa tendência é ver a relação das quatro causas como uma relação produtiva, no sentido de fabricação de um determinado artefato. Nesse sentido, a doutrina do hilemorfismo passou a ser considerada como ingênua e primitiva. Acabamos por compreender toda a doutrina hilemórfica numa relação de causas, ao modo de trabalho numa oficina, como a fabricação de um vaso de barro. Tendo: causa material = Barro; causa formal = o molde, configuração, de vaso; causa final = finalidade do vaso; e causa eficiente = o oleiro que modela o vaso. Então, diz-se que o universo era constituído deste modo: Deus é a causa eficiente, que age sobre a matéria (causa material), impondo-lhe uma forma (causa formal) em vista de um determinado fim (causa final). Ou seja, o universo é visto como uma relação de causa e efeito, ou melhor, de causação. Esse modelo de compreender a relação de causas diz apenas parte da constituição do universo, sendo válida somente para o nível mais ínfimo dos entes, o nível de ser enquanto não vivo, enquanto físico-material.

Estaremos mais próximo ao modo originário de compreender causa se nos colocarmos a ouvir causa, não num sentido de causação, mas na sua forma latina “res”, isto é, coisa, a saber, realidade. Assim, percebemos que a causa diz coisa, isto é, realidade, ente, ser. Portanto, temos: realidade material, realidade formal, realidade final e realidade eficiente. Estas realidades dizem diferentes níveis de crescimento da intensidade, da autonomia e da mútua dependência entre os diferentes graus de participação do ser.

SUBSTÂNCIA E ACIDENTE




Os medievais caracterizavam substância como “ens in se” e acidente como “ens in alio”. A palavra acidente significa o que cai sobre (ad-cadere). Em grego substância se diz “hypokeímenon” e acidentes “symbebekóta” (plural, neutro).

Usualmente substância é entendida como algo que está debaixo de aparências, como que um núcleo imutável, e acidente como o que cai sobre esse núcleo imutável, como algo mutável, passageiro. De acordo com o modo como Lúlio utiliza os termos substância e acidente parece que ele está inclinado a entender essas palavras na direção que os gregos acenavam quando diziam “hypokeímenon”, isto é, o que ali está deitado, estendido, bem assentado (“keisthai”) e “symbebekóta”, os concomitantes, os que acompanham em diversas variações concretas esse assentamento.

Os medievais estavam mais próximos à compreensão da substância no seu ser do que na sua representação enquanto um núcleo, atrás, escondido debaixo das aparências, ofuscado pelos acidentes.

Tentemos intuir o ser em sua pré-jacência, no seu se perfazer como identidade, como peso da auto-identidade. Colocando-nos em frente de uma montanha rochosa, que se estende ao céu aberto. Aqui, atônitos, exclamamos: Que imensidão, que grandeza! Essa grandeza e imensidão não está querendo apenas constatar a quantidade métrica, o tamanho em metros, dessa paisagem, mas sim abrir-se à substancialidade, a intensidade de assentamento daquela montanha, o em sendo da montanha como montanha, a mais própria identidade da montanha.

Imaginemos, então, que ao sopé da montanha viva um casal de velhos, experimentados na vida, que ali cultivam sua existência, que ali cultivam sua propriedade, seu jardim, sua horta, sua casa, seus animais. Este casal, na fidelidade da vida, depois de sua árdua luta, agora vivem numa pujança de bem-querença, e longos anos residem bem assentados como pessoas em sua mais profunda recordação. A montanha, o céu, o tempo e o espaço, o casal, a sua propriedade, jardim, a horta, sua moradia, em fim tudo, toda a paisagem e seus detalhes e componentes concomitantes estão impregnados, prenhes do peso, do assentamento de ser cada qual ele próprio na sua auto-identidade, na sua substancialidade. Cada vez, cada em sendo, assentado na sua identidade própria e viva, mesmo totalmente diferenciada entre si, tem o modo de ser de “hypokeímenon” e seus “symbebekóta”, o caráter ontológico de “in se”. A configuração, o feitio, de cada ente pode ser total e completamente diferente, mas o seu assentamento em si, seu em sendo, é sempre o mesmo como profundidade do ser, como pregnância, como amplitude, como a liberdade da e na auto-identidade do seu ser. O prefixo “hypo” parece acenar para essa profunda imensidão do ser, e não tanto para o que está de baixo, atrás de uma superfície.

Portanto, substância não indica qualidade, quantidade, modalidade de um algo, nem um pano de fundo ou espaço vazio de onde provêm os entes como blocos de coisa; nem acidente o que cai sobre esse bloco como acréscimo passageiro, mas sim a concomitância diferencial inerente aos entes que estão impregnados desse assentamento da substancialidade no ser.

Desse modo, nos termos “hypokeímenon” (substância) e “symbebekóta” (acidentes) encontramos a mesma imagem de vastidão, de imensidão, de profundidade, como mar abissal em inúmeras concretizações de ondas, gotas d’água, como uma sinfonia cósmica, com suas percussões e repercussões, em notas, grupos de notas, pausas e acordes, que antes utilizávamos para intuir o princípio-binômio matéria-forma.

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Mística ou Misticismo



Definitivamente não é um tema fácil de abordar. Mas vamos iniciar pela compreensão de mística. A palavra mística vem do termo grego “myo”, que significa nada menos que mistério. Mas este mistério se encaminha por algo próprio, que não tem como foco a revelação, ou seja, não se trata de um mistério que deva ser desvendado.


O mistério, de onde provém a mística, é sempre oculto e inalcançável. Deste modo, não podemos falar do que é a mística propriamente dita, mas sim ficar as voltas, tentando ao menos perceber a presença do mistério.

Idade Média é repleta de místicos, de pessoas que viveram uma experiência com a divindade, mas que na tentativa de dizer o que é esta experiência se traem e não conseguem apresentar o mistério que viveram.

O Budismo tem esta experiência como o espaço da transmissão dos ensinamentos. Somente quem passou pela experiência pode então ser chamado de mestre. É a experiência que faz com que um discípulo se torne mestre.

Para ilustrar o que digo trago um texto do blog Makyarim: “Buda reuniu os seus discípulos e mostrou uma flor de lótus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas. - Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - pediu Buda. O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores. O segundo compôs uma linda poesia sobre as suas pétalas. O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo. Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor e acariciou o seu rosto com uma das pétalas. - É uma flor de lótus - disse Mahakashyao. - Tu foste o único a ver o que eu tinha nas mãos - disse Buda.” A outra tradição que diz que Mahakashyao simplesmente sorriu, nisto Buda reconheceu em seu discípulo a experiência.

A experiência é simples e profunda, mas é tênue e límpida. É a busca do Tao.

O misticismo, que se nos apresenta a todo o momento, trata de modo diferente a experiência mística, pois ele fica com os sinais, ou seja, com as aparências da experiência. Assim, o misticismo recolhe objetos, incensos, velas e outros símbolos e apresenta-os como elementos místicos e de devoção. Entretanto, o contato com tais sinais não garante a experiência e nem a profundidade do conhecimento. Mas remete à simples reprodução das aparências, extremamente valorizada na modernidade.

O Saber do não-saber




Quando mergulhamos no ideário medieval nos deparamos com uma compreensão própria de saber-conhecimento, um modo de entender o mundo que aparece como estranho para nós modernos. Hoje temos muita dificuldade em entender o modo de pensar que dominou a filosofia grega e que, dentro de um outro colorido, reapareceu na Idade Média. Este modo de pensar se refletia na compreensão de saber-conhecimento como um “não-saber”. Não se tratava, entretanto, de um saber inculto, inócuo ou desprovido de conteúdo, mas consistia em reconhecer que não temos a capacidade de “saber tudo” e que somos capazes somente de reconhecer que “nada sabemos”.
Sócrates, lá na antiguidade, apresentou ao mundo este modo de saber, para isso ele cunhou uma frase que até hoje marca a história da filosofia: “tudo que sei é que nada sei”. Na Idade Média este “saber do não-saber” foi atualizado por Nicolau de Cusa e chamado de “Douta Ignorância”.
Na modernidade, com o advento das ciências, perdemos essa noção de profundidade, o saber deixou de buscar o “não-saber”, para se dedicar ao domínio do conhecimento. Enquanto o medieval dedicava a vida aos grandes empreendimentos, nós, modernos, fragmentamos nossos empreendimentos e dissolvemos nossas energias em inúmeras atividades. Para o medieval, qualquer atividade devia ser profunda e cheia de sentido próprio, nada era feito por fazer. Toda a existência estava empenhada em qualquer coisa que se iniciasse, por menor que fosse.
Na modernidade temos a tendência de fragmentar as ações, dispersando nossa energia em várias coisas e direções. Assim, temos dificuldade de nos mantermos atentos a uma única coisa, e ficamos exaustos, pois não alcançamos nossos objetivos. A estrutura moderna, que tudo a fragmenta, fez-nos cegos para os grandes objetivos, não sabemos por que vivemos nem o que queremos de nossas vidas, diferente dos medievais, que tinham certo sua função e que tinham clareza do motivo pelo qual viviam. O cavaleiro queria ser o grande cavaleiro, o artesão queria ser o grande artesão, mas nunca um queria o espaço do outro. Talvez nos falte o ideal de ser o melhor em tudo que fazemos, coisa que definia bem um medieval.
No que condiz ao conhecimento, hoje queremos saber um pouco de cada coisa, para dominar o máximo de conteúdo. Contudo, não conseguimos ter uma visão unívoca do mundo. Vemos o mundo com uma série de coisas linearmente colocadas. Os medievais não observavam o mundo como série de coisas. Mas como um panateísmo, onde em tudo podia ser observada a presença da divindade. Assim, todas as coisas estavam imbricadas, todas as criaturas remetiam a uma única realidade, pois tudo estava em tudo. E lá, na profundidade todas as coisas se encontram como unas.

O ESTUDO NO MEDIEVO





A Idade Média se destaca pelo empenho e dedicação que alguns tinham aos estudos. Os estudantes tinham como único caminho para vida o estudo em si. Ou seja, não havia entre eles o intuito da escola moderna, onde o estudante (aluno) se coloca em formação para uma atividade. Toda a atividade do estudo estava centrada nela mesma e a partir dela se desenvolvia uma busca interna, onde a sabedoria irrompia como empenho e dedicação. Assim, o estudo tinha um foco em si mesmo e o medieval simplesmente estudava, sem preocupar-se com frutos externos à arte de estudar.
Quando falamos em estudo, principalmente na experiência medieval, nos remetemos ao termo latino “Studium”, de onde derivou a palavra estudo. Este termo tem a ver com entrega de vida, com dedicação total e incondicional a algo. “Studium” remete ao devotamento e ao amor. O medieval, que dedicava sua vida ao estudo, o fazia por um amor incondicional. Por isso, vemos muitas pessoas que saiam de vários lugares do mundo para as cidades onde se destacava o ensino das artes. Essa busca pelo estudo estava alicerçada numa disposição pessoal, num chamamento anterior, ou seja, numa predisposição quase religiosa.
O medieval tinha em seu ideal o seguimento ao Cristo. Este seguimento remetia dedicação total da uma vida. Daí que muitos assumem o estudo não como preparo para desempenhar uma atividade rentável e lucrativa, mas como dedicação incondicional ao seu objetivo, quase uma vocação. Assim, o estudo se tornava o caminho para o seguimento do Senhor.
Para compreender o modelo do estudo medieval podemos fazer uso do provérbio latino, “non multa, sed multum”. Ou seja, não são as muitas coisas, a infinidade de saberes, que definiam o estudo, mas a profundidade de cada um. Uma única busca, intensa e profunda, o medieval busca por uma única perfeição. O saber que se remeteria ao poder, ao domínio do mundo, quer “multa”. O espírito, no que condiz ao “studium” diz o “multum”. Assim, o medieval dedicava sua vida com graça e plenitude àquilo que lhe era próprio, a intensidade das pequenas coisas.
Podemos sentir na profundidade dos medievais a força propulsora de bem fazer. Para a compreensão moderna pouco fizeram, pouco construíram, mas num entendimento de “Studium” muito fizeram, pois foram perfeitos e nos mais insignificantes detalhes.
Nessa mentalidade, um monge podia entregar sua vida à cópia. E ali, sobre aquele cavalete, passar todo o tempo fazendo pouquíssimas cópias, desenhando inúmeras iluminuras num único texto. O objetivo deste trabalho era a perfeição alcançada.
O mesmo se dava com o estudo. O caminho do estudo era a busca pela profundidade, o encontro com o essencial. Ao tomarmos um texto medieval vamos perceber que todo aquele trabalho se direciona ao encontro com o substrato que sustenta o todo. Ou seja, o encontro com a unicidade de todas as coisas. Neste caminho, o estudioso ia se deparando com inúmeras artes e inúmeros modos de compreender o mesmo. Estes modos vão irrompendo como astronomia, matemática, artes, gramática, teologia, etc. Todas estas facetas apontam para uma mesma realidade. Daí que o medieval passava em sua lida acadêmica pelo estudo do “Trivium” e do “Quadrivium”.
Contudo, estes saberes não estavam dispostos um ao lado do outro, como se apresentam os saberes hoje. Eles constituíam um processo de crescimento, um caminho de encontro consigo mesmo e com uma unidade maior. A relação com o sagrado era essencial para que este movimento pudesse acontecer. Somente com um alicerce bem firmado eles podiam bailar entre as diversas formas do saber. Contudo, somente uma coisa era realmente importante, a isso eles chamavam de seguimento-discipulado.

A Penitência na Idade Média

Fazer penitência era, nas palavras São Francisco, “reconhecer as mãos de quem nos criou”. Portanto, a penitência tinha um compromisso com a criação. Não se tratava de uma mortificação e nada tinha a ver com o sofrimento. Fazer penitência estava no sangue que qualquer medieval, eles a viam como o momento propício para abrir espaço para Deus, momento de íntima comunicação com o Criador.
Hoje, vivemos num mundo cheio, lotado, sem espaço para as coisas de Deus, o criador se torna mais um artigo a ser vendido e ofertado. O Criador entrou no mercado do marketing, precisamos de frases de impacto e de grandes acontecimentos para percebermos a presença dele.
Francisco via em seu tempo um crescendo declínio na fé, onde as atividades começam a tomar o espaço e o tempo que antes era destinado para o Senhor. Para se livrar desta prisão, o mundo, Francisco fazia o jejum, como um exercício de penitência.
A atitude de Francisco não tinha como finalidade o sofrimento, mas com o jejum ele permitia que a criatura fosse criatura, permitia que o animal permanecesse vivo, que a fruta seguisse seu caminho normal, garantia que por ao menos um dia, o alimento fosse simplesmente alimento, reconhecendo as mãos de quem o criou.
Francisco se percebia como irmão de todo ser. Ele não se fazia dono, senhor do alimento, mas também não permitia que o alimento o dominasse. A penitência fazia de Francisco um homem livre para a vida, e feliz diante do seu Senhor.
O hábito de eliminar excessos, de aparar arestas, criava um espaço divino, um momento para Deus, para que transparecesse somente Deus e não somente o homem.
Muitas coisas somente ocupam espaço em nossa vida hoje, a penitência perdeu o sentido do Sacrifício (“sacrum”+ “facere”), fazer santo, ou melhor fazer-se santo, e tomou uma característica de dor ou de mutilação. Quando vemos alguém que sofre ou que se maltrata, dizemos que este faz penitência.
Por isso, os medievais procuravam fazer penitência, desde leigos, monges, clérigos e até Papas. Penitenciavam não somente para se livrarem dos pecados e garantir a salvação, mas também para responder a uma guerra, um acontecimento que queriam contestar, como fazia Ghandi na luta pela não-violência.
Pela penitência se exercitava a vontade e o desejo, faziam deles um domínio e não o que fazemos deles hoje, uma dominação. Portanto, fazer penitência era mais que uma disposição, era propriamente um dom divino.“E o Senhor concedeu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência”. Escreveu São Francisco.
A atitude penitente está no cerne do ideal de Francisco, no seu pensamento e na sua ação. Através da penitência molda a sua existência carismática para entregá-la totalmente ao Senhor.

Dennys Robson Girardi
dennys_girardi@ibest.com.br

Dia 04 de outubro, nós franciscanos, celebramos a solenidade de São Francisco.

RELIGIÃO, VIDA E MODELO


Para compreender a Igreja da Idade Média, precisamos entender como o homem medieval percebia sua experiência religiosa. No contexto medieval, a Igreja era a única manifestação divina na terra, toda essa manifestação se dava numa estrutura, como algo organizado e claro. Por isso, estar ligado à Igreja era ter como certo a ligação com Deus.
Como a religião se manifestava numa estrutura, não necessariamente numa experiência de Deus, todos deviam seguir as normas e diretrizes da Igreja. Para o medieval, seguir os ensinamentos da Igreja era o mesmo que seguir próprio Deus.
Contudo, é bom relembrar que o homem mantinha firme sua postura, boa ou má. Logo, se existiam aqueles que viviam em tudo a verdade da religião católica, havia também os que se mantinham à distância. Desta forma, naquela época, surgem muitas heresias que colocavam constantemente a Igreja em posição desconfortável.
Uma forma de acabar com os inimigos da fé estrutural foi a criação do Tribunal da Santa Inquisição. Este tribunal tinha dever de defender a fé católica de todo tipo de profanação ou heresia. Assumindo a sagrada escritura e a tradição como base de seu pensamento, o tribunal caçou e levou muitos homens à fogueira, simplesmente por divergirem do pensamento reinante ou por apresentarem algo novo à sociedade.
Por outro lado, a vida mística era muito forte. Todos tinham a possibilidade de encontrar, por meio da religião, um sustento para manter o equilíbrio da vida. Quem assumia a religião fazia um processo onde o homem se moldava, numa busca de ser sempre melhor, se preparava para assumir a existência e se descobria enquanto ser no mundo. Quem assumia a religião estava disposto a uma radical mudança de vida, disposto a um encontro íntimo, disposto a uma verdadeira vivência de normas, na qual a mais importante era a obediência a Deus.
A religião era “digna de ser imitada”, pois imitar não é simplesmente repetir, mas é um seguimento, fazer um caminho sob os passos de alguém que já o fez. Seguir o Cristo era a essência medievalesca, para isso faziam uso das mais variadas formas que dispunham. Eram capazes de deixar tudo, de partir para uma peregrinação, de se refugiar em ermos, de simplesmente entregar-se ao martírio, tudo para a glória de Deus. O que realmente interessava era o seguimento.
No mundo atual religião não tem a ver com seguimento ou com obediência. Hoje, a religião existe na dinâmica do mercado, ela acontece de modo mercenário, muitas vezes baseada na teologia da prosperidade, onde benção está ligada aos bens materiais ou ao bem estar. Nessa dinâmica giramos pelas religiões e denominações religiosas, sempre buscando uma que se adapte aos objetivos de cada um, como quando buscamos um produto no mercado.
O homem moderno não tem compromisso com a religião institucional. Criamos nossas religiões a partir de nossas necessidades. Muitas vezes, usamos delas e de uma falsa conversão para compensar os erros do passado. Buscamos nas religiões o show extraordinário, onde haja manifestação emotiva e miraculosa. Assim, não temos um compromisso ético com a opção religiosa. A religião se torna um espaço momentâneo de bem estar, onde cantamos e dançamos, sem a consciência crística da vida, sem a expectativa do reino. Dessa nova religião do bem estar ouvimos os slogans: “Deus é 10!” (Enquanto o CD é 15,00), “Seja sócio de nossa obra!” (Sócio sem direito às ações).
A diferença crucial entre o modelo medieval e o modelo moderno de religião está na opção pela mudança de vida e seguimento do Cristo. Hoje, religião não passa de mais um produto à disposição nas prateleiras do grande mundo mercado, onde a religião compensa as dificuldades, depressões e tristezas do dia-a-dia.